Dealema
96 ao Infinito: novo álbum celebra 30 anos de Hip-hop português e concerto no Coliseu do Porto!
Os Dealema são uma das formações mais influentes da história do hip hop português. Desde 1996, o colectivo de Vila Nova de Gaia construiu uma identidade lírica singular, marcada por consciência social, densidade poética e independência artística. Três décadas depois, regressam com “96 ao Infinito”, um novo álbum que celebra 30 anos de carreira e reafirma o seu lugar central no rap português.
Há bandas que pertencem a uma geração. Outras pertencem a um momento. E depois há aquelas raras entidades que pertencem ao tempo, que o atravessam, o interpretam, o confrontam e o devolvem em forma de consciência rimada. Os Dealema são isso: uma força matricial do Hip-hop português que, desde 1996, construiu uma linguagem própria, uma identidade intransigente e uma ética artística imune às flutuações da indústria.
Nascidos em Gaia como um pentágono criativo composto por Maze, Mundo Segundo, Expeão, Fuse e DJ Guze, os Dealema afirmaram-se desde cedo como um colectivo onde a palavra nunca foi ornamento, foi arma, ferramenta, espelho e denúncia. Num panorama ainda embrionário do RAP nacional, trouxeram densidade lírica, reflexão filosófica, consciência política e uma carga existencial que os distinguiu imediatamente. O culto não foi fabricado: foi conquistado.
Ao longo de três décadas, a sua discografia tornou-se um arquivo vivo das inquietações do país e do mundo. Discos como “Dealema” (2003) ou “V Império” (2008) ajudaram a sedimentar uma estética onde boom bap clássico, ambiência cinematográfica e uma escrita de alto calibre coexistem com naturalidade. Mas o percurso do grupo nunca foi linear, e talvez seja essa fragmentação orgânica que os torna tão humanos quanto míticos.
Durante os hiatos colectivos - Maze, Mundo Segundo, Fuse, Expeão e DJ Guze - cada elemento expandiu o universo Dealema através de projectos a solo que aprofundaram identidades próprias sem nunca romperem a matriz original. Mundo Segundo consolidou-se como produtor e MC de referência, Maze tornou-se uma das vozes mais respeitadas da escrita interventiva nacional, Fuse explorou territórios sonoros e colaborações diversas, Expeão manteve-se fiel à vertente mais crua e reflexiva, enquanto DJ Guze sustentou a espinha dorsal sonora com a arte do scratch e da construção rítmica. Nunca houve dissolução, houve maturação silenciosa.
E é precisamente dessa maturação que nasce o novo capítulo. Depois de um hiato considerável, o regresso em formato de álbum não surge como reacção apressada, mas como consequência inevitável de uma urgência criativa acumulada. O mundo mudou, pandemia, instabilidade política, polarização social, digitalização extrema, mas as distopias que os Dealema anunciavam nos anos 90 deixaram de ser alegorias. Tornaram-se quotidiano. Se antes alertavam, agora testemunham. Se antes previam, agora vivem na pele.
Este novo disco não é um exercício nostálgico. É uma reafirmação. Uma celebração consciente de trinta anos de percurso, simbolizada na expressão “96 ao Infinito”, não como saudade, mas como continuidade. A origem não é prisão; é âncora. A memória não é peso; é fundamento.
O processo criativo reflecte a maturidade de quem já não partilha tardes infinitas de adolescência, mas mantém uma sintonia quase telepática. Videochamadas, trocas de ficheiros, brainstormings digitais substituem os encontros físicos constantes, mas a essência mantém-se intacta. Cada verso carrega biografia. Cada beat sustenta décadas de escuta e vivência. A escrita, hoje, é mais incisiva, mais depurada, mais consciente do poder da simplicidade, mas a fome de rimar permanece a mesma dos vinte anos. Há neste álbum uma tensão equilibrada entre identidade e risco. Os ambientes clássicos são revisitados, mas sem fetichismo retro. Há actualização de beats, flows e texturas, não por necessidade de validação externa, mas por fidelidade à evolução interior de cada membro. O resultado é um disco que soa a Dealema, mas aos Dealema de agora.
A celebração materializa-se de forma simbólica e concreta a 20 de Fevereiro, no histórico Coliseu do Porto. Não é apenas um concerto. É um marco geracional. Um encontro entre passado, presente e futuro. Pais que cresceram com Dealema levam filhos que agora encontram nas mesmas rimas um eco das suas próprias inquietações. O culto transforma-se em legado. Porque, no fundo, o que os Dealema sempre defenderam permanece urgente: pensar pela própria cabeça continua a ser um acto revolucionário. A palavra continua a ser uma arma poderosa. E o RAP, quando feito com verdade, continua a ser ferramenta de construção colectiva.
“96 ao Infinito” não é apenas um título. É um compromisso. Trinta anos depois, o pentágono não regressa para provar nada. Regressa porque tem algo a dizer. E quando os Dealema falam, o silêncio escuta.
1. Depois de um hiato considerável, o que tornou este o momento certo para regressar em formato de álbum: a urgência criativa ou a maturação silenciosa?
A maturação silenciosa transforma-se em urgência criativa, sempre foi assim! Enquanto criativos, vamos acumulando experiências, vamos vivendo vida, até sentirmos esse impulso que nos obriga a transformar tudo o que fomos absorvendo em arte. Neste hiato, como em outros anteriores, continuámos muito activos a solo sem nunca forçarmos ou nos impormos um momento para o disco do colectivo. Não seguimos as imposições da indústria, temos timings muito próprios e quando estamos conscientes que é o momento certo de regressar, é porque temos coisas para dizer, é porque essa urgência criativa já começou a fazer efeito.
2. Este novo disco nasce da necessidade de dizer algo específico ao presente ou de organizar inquietações acumuladas ao longo dos últimos anos?
Vivemos tempos conturbados, essa inquietação que vimos a anunciar há décadas está a tomar uma forma que nos asfixia enquanto sociedade. O que sempre dissemos desde 96 até hoje continua a ser válido nos nossos dias e faz ainda mais sentido para quem o ouve, pois agora estamos a viver muita dessa opressão na pele. Lutamos sempre pela liberdade do ser.
O disco também nasce bastante duma intenção de celebrar a nossa existência, de olhar para o passado e para todo o nosso percurso, de celebrar o aqui e agora destes 30 anos, com o nosso público no Coliseu do Porto, e apontarmos para o futuro com este “96 ao Infinito” que marca uma nova fase de renascimento do pentágono.
3. O processo de criação deste álbum foi diferente dos anteriores? Mais introspectivo, mais colectivo, mais fragmentado?
Certamente que foi mais introspectivo, levamos o nosso tempo a fazer este disco e nesse tempo veio a reflexão e a necessidade de perceber o que queríamos dizer.
Não passamos o mesmo tempo juntos que passávamos na adolescência, as vidas de adulto não o permitem, então muito deste disco é feito à distância, com troca de ideias em videochamadas, com troca de ficheiros, brainstormings digitais. Até que as peças do puzzle se vão compondo, existe uma sintonia inata entre todos, sabemos que nos vamos complementar e nunca nos sobrepor.
4. Há uma intenção consciente de actualizar a linguagem sonora dos Dealema ou o foco esteve em aprofundar aquilo que já vos define?
Nunca limitamos a nossa criatividade, mas também temos consciência que temos uma sonoridade muito definida. Quisemos revisitar alguns ambientes clássicos do início da nossa carreira, mas também quisemos experimentar e acrescentar ambientes mais actuais, mais de acordo com o que somos agora e apontar o caminho a seguir no futuro, em termos de beats, rimas, de flows e scratch.
5. Como se equilibra maturidade com risco criativo quando se carrega três décadas de história?
Nunca nos conseguimos dissociar da nossa identidade, está demasiado vincada em nós e é isso que nos transforma numa banda de culto. Mas estamos em constante evolução e também nos queremos reinventar sonoramente e na forma como veiculamos a nossa mensagem. Criar dá-nos muito gosto, esse equilíbrio acontece de forma muito orgânica e nada cerebral ou premeditado.
6. A escrita mudou com a idade? A urgência é diferente aos 40/50 do que aos 20?
A escrita foi mudando a cada década! A nossa escrita nasce da biografia e resulta dessa experiência de vida. As nossas letras impactam tanto, porque as pessoas sentem essa verdade, sentem o peso da vida nas palavras. Agora, quase aos 50, já vivemos muito, já experienciámos coisas que só imaginávamos quando tínhamos 20, isso garante que a forma como escrevemos ainda seja mais precisa, mais incisiva, sem excedentes, sem floreados, é tudo muito mais polido. O mais difícil na escrita é a simplicidade. Mas a fome de rimar, essa é a mesma dos 20, sentimos a mesma urgência criativa e essa é a principal ignição deste álbum.
7. O mundo mudou também drasticamente nos últimos anos: pandemia, instabilidade política, digitalização extrema. De que forma isso atravessa as rimas deste disco?
“Anunciámos as distopias, agora vive-as! Sonhamos com utopias, é hora, cria-as!” Esta rima responde muito bem a essa pergunta, desde sempre que alertamos para um rumo que tem vindo a ser seguido pela Humanidade. Continuamos a instigar o pensamento próprio, a tentar transformar consciências, nunca quisemos endoutrinar ninguém, apenas trazer clareza e libertar o ser dos condicionamentos que são impostos. Continuamos com a mesma missão neste disco, só que agora, muitos dos nossos ouvintes já entendem de outra forma as palavras que fomos escrevendo ao longo dos tempos.
8. Sentem que este disco pode funcionar como porta de entrada para uma nova geração? Tenho filhos que sentem que este álbum é para eles, para a geração deles, o momento deles. Posso assumir que também houvesse este desejo da vossa parte?
Temos desde sempre a vontade de chegar aos jovens, eles são o futuro. É importante para nós percebermos que estimulamos esse pensamento próprio desde cedo. As nossas músicas cruzam gerações, temos filhos a ouvirem Dealema porque os pais ouviam em casa quando eles eram crianças. Depois também há jovens que estão a descobrir Dealema agora, e a fazer a retrospectiva do nosso catálogo, o cariz intemporal da nossa música faz com que também eles se relacionem com coisas que escrevemos na nossa adolescência.
9. Existe alguma faixa que, para vocês, sintetize melhor o momento actual dos Dealema?
Talvez a que melhor sintetize o nosso momento atual seja a “96 ao Infinito” porque não é nostalgia, é continuidade. Essa faixa carrega a nossa origem, 1996, mas fala no presente com maturidade, consciência e zero concessões em relação ao que fomos, somos e seremos. É o ponto onde a memória encontra a evolução. Mostra que não estamos presos ao passado, estamos ancorados nele para projectar futuro.
10. Se este fosse o último disco dos Dealema, que mensagem gostariam que permanecesse depois do silêncio?
Se este fosse o nosso último disco gostaríamos que ficasse a ideia de que a palavra é uma arma muito poderosa.
Que pensar pelas nossas próprias cabeças continua a ser um ato revolucionário. Que mais do que músicas, queremos deixar consciência, espírito crítico e a certeza de que o nosso RAP é uma ferramenta de construção coletiva. Que as nossas palavras ecoem até ao infinito!
De hoje em diante…
Trinta anos depois do primeiro impulso, os Dealema continuam a provar que a longevidade não é uma questão de resistência, mas de coerência. Há projectos que sobrevivem porque se adaptam; os Dealema permanecem porque nunca traíram o seu núcleo. A sua trajectória não é feita de picos mediáticos, mas de consistência ética, de densidade lírica e de uma fidelidade quase obstinada à ideia de que o RAP é, antes de tudo, pensamento em movimento.
Este novo álbum não soa a regresso, soa a continuidade. Não é um gesto nostálgico, é um acto de afirmação. É a prova de que a maturidade pode conviver com risco, de que a simplicidade pode ser mais cortante do que o excesso, e de que a urgência criativa não envelhece quando nasce da verdade biográfica. Aos vinte rimava-se com fome; aos cinquenta rima-se com consciência. A ignição é a mesma, o combustível é mais denso. Num mundo saturado de ruído e distração, a proposta dos Dealema mantém-se desconfortavelmente necessária: pensar, questionar, libertar. Não há concessões, não há fórmulas fáceis, não há necessidade de agradar ao algoritmo. Há palavra. E a palavra, quando usada com precisão e responsabilidade, continua a ser um instrumento de transformação.
Se alguma ideia deve ecoar depois deste disco, e depois de cada silêncio, é a de que a consciência não tem prazo de validade. Que o pensamento crítico não é tendência, é necessidade. E que, enquanto houver algo a dizer, haverá um microfone aceso.
O concerto de 20 de Fevereiro no Coliseu do Porto (já esgotado) não será apenas uma celebração de carreira. Será um rito de passagem colectivo, um encontro entre gerações, entre quem cresceu com aquelas rimas e quem as descobre agora como se fossem escritas para o presente. Porque, na verdade, sempre foram.
Dos 96 ao infinito. Não como slogan. Como princípio.
COLECTIVO DEALEMÁTICO OFFICIAL WEBSITE

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