For the Glory – “Drown in Blood” Uma Noite Histórica de Hardcore Português
For the Glory regressaram à República da Música para celebrar “Drown in Blood” com a formação original. Uma noite de Hardcore na sua forma mais visceral, com Sunny Slam, a energia da Margem Sul de uns Fear the Lord, e um reencontro marcante com uma das bandas fundamentais do hardcore português. Uma celebração da memória, da comunidade e do peso de um álbum que deixou marca na cena nacional.
A noite de 17 de Outubro estava especialmente amena, o que me pareceu engraçado para o que aconteceria pouco antes do fim da mesma. Qual peregrinação, os crentes rumaram à rua Rua do Centro Cultural, número 29, no Bairro de Alvalade, com o intuito de celebrar o Hardcore e um dos marcos sonoros do movimento em Portugal. Muitas bandas vieram e muitas mais virão; muitas já foram e imensas estão para chegar. Tudo é cíclico, tudo tem um fim, tudo é levado à exaustão, tudo morre... ou pelo menos entra em estado de coma. É inegável que muitas vezes sentimos, com pesar, o fim de certas bandas. Entendemos que estas tiveram um papel fulcral naquilo que somos, e sentimos que com com esse fim, um pouco de nós morre. Esta exposição demasiado emocional não me parece desfasado nesta descrição. Que me desculpem as centenas de bandas que tomaram a decisão de cessar actividades, mas certas bandas carregam um peso que pode ser mais pesado que o de outras... o chamado “deal with it”.
Regressando ao que nos fez sair da Zona Oeste e rumar à capital deste “desimpério” desgovernado, a República da Música encheu para celebrar o Hardcore, e fê-lo através da celebração de um álbum que tomamos como fracturante no que a este concerna. O álbum, “Drown in Blood”, a banda, For the Glory, formação original: Congas, Rui Brás, Sérgio B., Mike Ghost e Poli Correia. Como dito acima, há bandas que carregam mais peso que outras fazendo destas, que tomamos como peças fundamentais neste puzzle que é a cena Hardcore portuguesa. Não recordo quando decidiram dizer hasta la vista, gilipollas, mas agradecemos todo e qualquer regresso, especialmente quando o cardápio é digno de restaurante Estrela Michelin. “Drown in Blood” é a primeira expressão sonora do colectivo dos subúrbios de Lisboa, e assemelha-se áquela chapadão que levaste em miúdo, da tua mãe, por não fazeres a cama. Homicídio certo.
Mas um pequeno review para o início da noite. De Loulé, os Sunny Slam, banda de Hardcore melódico e excelente para dar início ao baile. Infelizmente não tiveram sorte, e o som nas primeiras malhas estava deveras estranho. Baixo e bateria, all good; guitarras pareciam perdidas numa qualquer caverna. Com o desenrolar do concerto lá as conseguiram recuperar, e foi sempre a partir até ao fim. O som é energético e o público foi chapadão para cima. Menção a uma rapariga, bem lá na frente, sem medo algum e sempre dar-lhe! Apraz-me saber que esta cena é A Cena, e alvíssaras pelo respeito que uma larguíssima maioria do pessoal tem uns pelos outros. Ainda quanto a Sunny Slam, gostei bastante. Na verdade tenho pena do som ter estado tão estranho, o que impediu, de certa forma, de desfrutar do som ao vivo, como em gravação. Mencão para solos de guitarra... mais que um eheheh
Se houve algo que me deixou bastante satisfeito foi o terem conseguido cumprir horários. Cheguei a casa mais cedo e sofri menos da hérnia LOL brincadeiras à parte, o evento correu – do meu ponto de vista de membro do público – tão bem muito por esse cumprimento de horários. Não tomemos isto como algo menor, nunca. Os meus parabéns a quem meteu o pessoal na linha e geriu aquilo qual linha de montagem. E nesse sentido, e à hora marcada – mais coisa menos coisa – entra em palco aquela que é, segundo um dos amigos que comigo foi, “a banda mais quente da cena nacional de Hardcore”, e não debato este ponto porque é real. Ieperfest, Revolution Calling, Casa Amarela (por esta ordem de importância, obviamente), entre muitos outros palcos! O pessoal da MS não falha, e vá onde vá, há festa e estaladão! Quanto à performance, sou suspeito, visto ter uma relação estreita e considerar a cena Hardcore da Margem Sul como sendo A Cena de Hardcore nacional. Assim sendo: nota 10 para este pessoal. E se há coisa engraçada em FTL é que eles não só são neste momento o porta-estandarte do Hardcore da MS, como a perfeita conjugação de elementos que sempre estiveram presentes no Hardcore do lado certo do rio: Hardcore e Hip-hop. Wu-Tang Clan e Terror. O Hardcore Chunga, como disse o mesmo amigo, e com o qual concordo (não tomem isto como um insulto, por favor). Já mencionei que foi do cacete?! Ah, tivemos direito ao vocalista de Not Without Fighting em palco, e a imenso stagedive e mosh saudável. Até a um próximo concerto.
Chegámos, assim, ao momento alto da noite. Se até então estava descansadinho da vida, sem ninguém a cheirar a cerveja e suor ao meu lado, isto deu uma volta de 180º graus e de repente a sala assemelhava-se a uma lata de sardinhas. Expectável, mas um cota da minha idade já só quer o volume baixo e uma cadeira porreira. Ainda assim, siga para bingo. For the Glory com a formação que gravou o “Drown in Blood”, a tocar o “Drown in Blood”. E esta, hein?! Ora aqui está algo que, até ter visto o anúncio da Hellxis ao concerto, não imaginava poder acontecer. Dizer que foi um evento único irá sempre soar demasiado cheesy, mas na verdade considero que foi um momento deveras especial. Os For the Glory – especialmente na pessoa do Ricardo Dias, a.k.a. Congas – foram durante anos um dos pilares do Hardcore em Portugal; e não, não estamos a falar se A ou B deram início a X ou Y, ou se C ou D são isto ou aquilo! Falamos de uma das bandas que, durante mais de uma década, levou o nome do Hardcore nacional além-fronteiras, e que dentro das mesmas sempre fez tudo para que o Hardcore crescesse e fortalecesse as suas bases estruturais. Falamos de uma banda que se tornou foco de admiração de imensos músicos que criavam as suas próprias bandas, que se tornou um garante de qualidade cada vez que se anunciava um novo álbum. Arrisco dizer que daqui a uns anos – se não já hoje – os colocarão ao mesmo nível de uns X-Acto em termos de relevância e importância para/no Hardcore nacional.
O concerto?! A hérnia agradeceu o facto de não ter sido muito longo, mas o saber que poderia ser a última vez que veria aquelas malhas ao vivo, fez com que cada momento fosse absorvido com a devida atenção. Há anos e anos que não os apanhava ao vivo, mas recordo com especial carinho um concerto há muitos anos em Lafões, isto foi 2009, creio! Whatever. Com For the Glory é difícil um gajo não se sentir satisfeito com um concerto. Na verdade esta é uma das características positivas do Hardcore. A entrega que emana do palco é como que revitalizadora, contagiante, um bálsamo de energia, e For the Glory nesse campo não falha. A presença de palco do Congas é imponente e quase marcial em termos de postura e como este conduz o público e o ritmo do concerto. Entre palavras de ordem e gritos, este levou-nos a bom porto. De mencionar a presença em palco de Martijn van den Heuvel, vocalista de No Turning Back, velhos amigos do colectivo nacional.
Que mais vos posso dizer
quanto ao concerto? Se o resumir a “foi um concerto de For the Glory”,
conseguis ter noção daquilo que se experienciou na noite de 17 de Outubro na
República da Música? Para alguns fará todo o sentido; para outros, os menos
afortunados, quiçá não. De qualquer forma, acreditem que foi do caraças! The end...



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