Hardcore e Metalcore Underground: Cinco Reviews de Lançamentos Essenciais
Entre o Hardcore underground, o Straight Edge, o Metallic Hardcore e o Metalcore clássico, estes cinco lançamentos mostram diferentes formas de preservar a intensidade e a identidade da música pesada contemporânea. De bandas galegas como xCAUSAx, Fractura e Derradeiro Nível aos Mayesta e Firstline, estas reviews exploram EPs e álbuns marcados pela agressividade sonora, pela identidade cultural e pelo espírito de comunidade. Cinco propostas distintas para quem acompanha o Hardcore e o Metalcore underground e procura novos nomes fora dos circuitos comerciais.
xCAUSAx – “Sal e Ferro” (CDT, 2024)
Há algo de refrescante no Hardcore que sabe exactamente o que quer fazer e não perde tempo a chegar ao assunto. “Sal e Ferro” é o EP de estreia dos galegos xCAUSAx, cinco temas condensados em cerca de sete minutos de Hardcore directo, urgente e sem espaço para concessões.
Entre o Youth Crew e o Metallic Hardcore, o grupo conjuga a velocidade e a agressividade com passagens mais cadenciadas, refrões colectivos e uma energia que parece feita para ser descarregada em palco. Os vocais em galego reforçam a identidade do trabalho, aproximando-o de uma realidade cultural e linguística que partilha muito com a nossa. “Conectados” destaca-se pela forma como concentra o espírito comunitário que está no centro desta música.
“Sal e Ferro” não procura reinventar o género, nem precisa de o fazer. É um registo honesto, incisivo e assente em valores como a união, a resistência e a convicção. Sete minutos, sem fillers e sem rodeios: Hardcore com propósito.
Fractura – “As Crúas Regras Do Xogo” (The Coming Strife, 2024)
Vindo da Galiza, os Fractura não estão aqui para fazer amigos. “As Crúas Regras Do Xogo”, álbum de estreia editado em Agosto de 2024, é uma descarga de heavy Hardcore sem contemplações, construída sobre riffs esmagadores, ritmos arrastados e uma agressividade que não dá tréguas ao longo dos dez temas.
Com raízes no Hardcore metálico
francês dos anos 90 e 2000, o disco aposta na violência sonora e numa abordagem
frontal, sem espaço para concessões. Mas é também na língua galega que encontra
uma parte importante da sua identidade. Em temas como “Fractura” e “Último
Estertor”, a raiva ultrapassa a dimensão pessoal e transforma-se numa afirmação
de identidade, resistência cultural e confronto com as estruturas de poder.
“Baixo Chave” e “Asalto Ás Murallas” mostram bem a capacidade da banda para conjugar peso e intensidade, enquanto o tema-título encerra o álbum sem abandonar a postura combativa que o atravessa de ponta a ponta.
“As Crúas Regras Do Xogo” não
procura reinventar o Hardcore, mas executá-lo com convicção e sem filtros. Cru,
hostil e assumidamente vingativo, é um disco que coloca a cena galega no mapa e
prova que a língua, a identidade e a raiva continuam a ser armas poderosas
dentro do género. Aqui, as regras são cruéis e os Fractura não estão dispostos
a jogar pelas regras de ninguém.
Derradeiro Nível – “O Alvorar de Tudo” (Cruzade Records, 2026)
Há bandas que recuperam o espírito do hardcore dos anos 90 e outras que conseguem provar que essa chama continua bem viva. Os galegos Derradeiro Nível pertencem à segunda categoria. Em “O Alvorar de Tudo”, o sexteto entrega seis temas de Straight Edge Hardcore carregados de intensidade, agressividade e convicção, sem perder de vista a dimensão emocional que sempre tornou este género tão especial.
Com influências de nomes como Strife, Buried Alive, Unbroken e One King Down, o EP aposta em riffs pesados, ritmos contundentes e uma energia que alterna entre a urgência e o peso esmagador. Mas não se trata apenas de nostalgia. A banda pega numa linguagem clássica e transforma-a numa declaração própria, reforçada pelo uso do galego e pela ligação à identidade cultural da Galiza.
O tema-título, com participação dos Clava, e “Eterna Promessa”, que conta com os Fractura, reforçam o sentido de comunidade que atravessa o disco. Já “Esmaga e Persevera” encerra o EP com a determinação que o título promete: resistir, insistir e continuar em frente.
“O Alvorar de Tudo” é Hardcore sem
artifícios, feito de compromisso, raiva e perseverança. Num género tantas vezes
definido pela autenticidade, os Derradeiro Nível mostram que respeitar a velha
escola não significa ficar preso ao passado. O futuro também se constrói com os
punhos cerrados e os pés bem assentes nas próprias raízes.
Mayesta – “What the Angel Told Us” (2026)
Os Mayesta apostam no metalcore clássico em “What the Angel Told Us”, um EP que recupera a combinação de agressividade, peso e intensidade emocional que marcou o género na sua fase mais influente. Ao longo de seis temas, a banda explora uma sonoridade assente em riffs contundentes e numa abordagem que privilegia o confronto, sem esquecer a dimensão melódica que distingue o metalcore do hardcore mais tradicional.
Títulos como “I Met God but I Don't Remember His Name” e “Abandon All Hope You Who Enter Here” apontam para uma temática sombria, enquanto “Day of Vengance” e “The Cross I Chose” reforçam a carga espiritual e confrontacional que atravessa o lançamento. Existe aqui uma ligação evidente à tradição do metalcore, quando a agressividade e a introspecção caminhavam lado a lado, sem que uma anulasse a outra.
“What the Angel Told Us” é uma
proposta para quem continua a encontrar no Metalcore clássico a combinação
ideal entre peso, melodia e intensidade. Sem precisar de reinventar a fórmula,
os Mayesta procuram afirmar a sua identidade dentro de um género cuja força
continua a residir precisamente nesse equilíbrio.
Firstline – “Tribu” (Asilo Records, 2026)
O hardcore sempre teve uma relação especial com a identidade, a pertença e a força da comunidade. Em “Tribu”, os Firstline partem precisamente dessa ligação para entregar um registo de Hardcore directo e contundente, onde a energia sonora acompanha uma identidade que não procura pedir licença para existir.
Com uma abordagem assente na agressividade, nos riffs pesados e numa intensidade pensada para o impacto ao vivo, os Firstline mantêm-se fiéis ao lado mais físico do género. A atitude é frontal, sem grandes desvios ou necessidade de adornos, privilegiando a força colectiva que continua a fazer do Hardcore muito mais do que música.
O próprio título, “Tribu”, sugere essa ideia de união e identificação, valores profundamente enraizados na cultura Hardcore. Num género construído em torno de cenas locais, espaços partilhados e comunidades que sobrevivem à margem dos circuitos comerciais, essa dimensão continua a ter um significado particular.
“Tribu” é uma afirmação de pertença
e atitude, feita para quem encontra no hardcore uma forma de expressão e um
espaço de resistência. Sem precisar de reinventar a fórmula, os Firstline
reforçam a importância de manter viva essa ligação entre música, identidade e
comunidade.



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